Chance de um aluno mais pobre entrar numa universidade pública é de apenas 2%

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Entre 1980 e 2015, o número de estudantes em cursos superiores pulou de 1,4 milhão para 8 milhões. Esse crescimento de quase 500% ocorreu principalmente no setor privado, onde estudam hoje três em cada quatro universitários. Se no início da década de 80 a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE) registrava que apenas 5% dos brasileiros entre 25 e 34 anos tinham nível superior, em 2014 esse percentual já era de 15%. Um avanço expressivo, mas ainda insuficiente, pois o acesso ao ensino superior continua muito desigual.

Chance de um aluno mais pobre entrar numa universidade pública é de apenas 2%Uma evidência disso foi publicada no livro “Educação média profissional no Brasil: situação e caminhos”, lançado na semana passada pelo sociólogo Simon Schwartzman. O autor mostra que a média no Enem de alunos cujos pais têm nível superior iguala ou supera 600 pontos no exame, no caso de estudantes que vêm de escolas particulares ou do sistema federal. Já para estudantes da rede estadual, a média é de apenas 500 pontos se o pai tiver ensino médio completo, ou inferior a isso se a escolaridade paterna for ainda menor.

Outro estudo recente que chega a conclusões parecidas é dos pesquisadores Carlos Góes e Daniel Duque, do Instituto Mercado Popular. Num texto em que argumentam que as universidades públicas no Brasil ainda perpetuam desigualdades de renda, eles estimaram a probabilidade de um jovem conseguir uma vaga no ensino superior público. Se a renda familiar per capita do estudante for de R$ 250 ao mês, essa chance é de apenas 2%. Se essa renda é de R$ 5.000, as chances aumentam para 20%. E, no caso dos mais ricos, com renda de R$ 20 mil per capita, vai a 40%.

Os autores não fizeram a conta para a rede privada, mas provavelmente chegariam a um quadro parecido. Diferentemente do que reproduz o senso comum, não é verdade que no Brasil os ricos vão para as universidades públicas e os pobres para as particulares. Segundo a Pnad, a renda média per capita familiar dos universitários na rede privada é de R$ 1.513, superior aos R$ 1.386 verificados na rede pública. Em ambos os casos, é muito maior do que a de alunos do ensino médio na rede pública: R$ 611.

Diagnosticar o elitismo do ensino superior – público e privado – não significa que não houve avanços. É notável, por exemplo, que o percentual de universitários que se autodeclararam pretos ou pardos ao IBGE tenha crescido de 18% para 42% entre 1998 e 2014. O problema é que esse avanço tem acontecido principalmente em cursos de menor retorno financeiro, como mostra o estudo do Instituto Mercado Popular, que analisou apenas as públicas. Nelas, já há cursos em que mais da metade dos alunos são negros ou pardos. É o caso de letras (língua portuguesa), em que esse grupo representa 60% das matrículas. Mas, em medicina, são apenas 35%.

Chance de um aluno mais pobre entrar numa universidade pública é de apenas 2%País nenhum no mundo consegue ter 100% de sua população adulta com nível superior. A nação mais próxima disso é o Canadá, onde 55% têm superior completo. A média dos países desenvolvidos é de 36%, mais que o dobro da brasileira. Ainda há muito a fazer no ensino superior, mas sem esquecer de que o problema principal está na educação básica, onde a baixa qualidade expulsa os jovens mais pobres da escola antes mesmo de completarem o ensino médio.

Aqui, link para o estudo do Instituto Mercado Popular.

Aqui, link para o blog de Simon Schwartzman, onde é possível baixar a versão digital do livro. 

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